domingo, 28 de novembro de 2010

Exteriorizar





Ao soar do despertador meus olhos se abriram. A primeira visão foi a do teto; um pouco embolorado, um pouco sujo. Meus pés ainda descalços tocaram o chão gelado e as mãos em meu rosto tiraram o que restou de meu sono. Meu corpo descançado preparava-se para mais um dia na praça. Eu amava pintar quadros; fazia com tanto prazer que as vezes passava a madrugada toda pintando minhas inspirações. Mas as vezes sentia que me faltava algo.
Saí de casa com o copo de café-com-leite em uma mão e a bolsa azul-escuro na outra. Passando pela porta de madeira, minhas sandálias de couro tocavam o chão ainda molhado com o orvalho da manhã. Aos poucos, as imagens de árvores e da neblina davam lugar a uma praça com várias pessoas indo e vindo de todas as direções.
Sentei-me embaixo de um carvalho bem antigo e alto, montei meus apetrechos e em pouco tempo as cores começavam a fazer sentido sobre a tela. Logo de manhã já eram quase 4 quadros prontos. Minha cabeça já começava a perder a inspiração quando me sentava para descançar um pouco.
Cruzando o horizonte, em direção aos meus quadros, vinha um homem, com roupas brancas um pouco largas, descalço e segurando algumas flores na mão direita. Sentou ao meu lado cruzando as pernas.
- O que faz o senhor feliz? - Perguntou o homem com um sorriso no rosto.
- Pintar quadros - Respondi. - E o que te faz feliz? - Perguntei ao homem.
- Dar flores. - Respondeu o homem com um ar gracioso.
- Então você vive de que? Da felicidade alheia? - Perguntei ao homem com ironia.
- Sim. - Respondeu o homem sorrindo. - E aqui, uma flor para o senhor.
O homem me deu uma flor laranja, me deu um sorriso e caminhou rumo ao outro lado da praça.
As horas se passavam e cada vez mais quadros eu vendia. O sol ia se escondendo aos poucos e o escuro me dificultava continuar a pintar mais quadros. Decidi levar para a casa o último quadro que ainda não havia vendido. Com o passar dos minutos minha bolsa azul-escuro estava cheia novamente e meu corpo cansado voltava para casa.
A porta se fechou e minha bolsa eu joguei em cima da mesa. Sentei-me sob o sofá e peguei aquele quadro que ainda não tinha vendido. Um sorriso se abriu em meu rosto quando vi uma flor laranja pintada naquele quadro. Preguei-o sob minha cama; não me sentia tão feliz a muito tempo.
Deitei-me sobre a cama e puxei o cobertor feito de retalhos. Eu me sentia completo novamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário