terça-feira, 30 de novembro de 2010

Tudo cinza



Os ponteiros do relógio já marcavam as 23:28 e o tempo parecia não passar naquela sala de hospital. Minha mente estava cheia de pensamentos incertos e quanto mais os ponteiros do relógio se moviam, mais eu alimentava o medo de que tudo daria errado.
Quando os ponteiros do relógio marcaram 23:36, e decidi não esperar mais. Levantei-me e fui em direção ao corredor; entrei em uma sala onde estava escrito 'Emergência'. Me surpreendi com o que eu vi. Não havia nada de pessoas chorando ao lado da minha cama. Caminhei até a ela e sentei ao meu lado, contemplando meus olhos fechados e meu rosto pálido. A cada vez que olhava para os lados, via uma máquina que controlava o elo entre a minha vida e a minha morte.
A cada vez que a fé me faltava, mesmo que por um instante, a máquina começava a baixar meus batimentos cardíacos. Lutava comigo mesmo para não deixar a minha vida ir embora. Na parede da sala, havia também um relógio, que já marcava 00:18. A minha esperança estava por um fio.
A porta da sala se abre e uma moça coloca uma flor ao lado de minha cama. Meus batimentos começam a subir e posso ver os meus olhos se abrirem, eles lutam para continuar abertos e com muito esforço, eles se colocaram a observar a flor, mas logo se fecharam.
O relógio marcava 00:27 e meu corpo não aguentou, a máquina deu um sinal e alguns enfermeiros entraram no meu quarto para retirar o meu corpo. Depois que meu corpo foi levado, queria, só mais uma vez ver aquela flor, mas ela já havia morrido comigo.

domingo, 28 de novembro de 2010

Exteriorizar





Ao soar do despertador meus olhos se abriram. A primeira visão foi a do teto; um pouco embolorado, um pouco sujo. Meus pés ainda descalços tocaram o chão gelado e as mãos em meu rosto tiraram o que restou de meu sono. Meu corpo descançado preparava-se para mais um dia na praça. Eu amava pintar quadros; fazia com tanto prazer que as vezes passava a madrugada toda pintando minhas inspirações. Mas as vezes sentia que me faltava algo.
Saí de casa com o copo de café-com-leite em uma mão e a bolsa azul-escuro na outra. Passando pela porta de madeira, minhas sandálias de couro tocavam o chão ainda molhado com o orvalho da manhã. Aos poucos, as imagens de árvores e da neblina davam lugar a uma praça com várias pessoas indo e vindo de todas as direções.
Sentei-me embaixo de um carvalho bem antigo e alto, montei meus apetrechos e em pouco tempo as cores começavam a fazer sentido sobre a tela. Logo de manhã já eram quase 4 quadros prontos. Minha cabeça já começava a perder a inspiração quando me sentava para descançar um pouco.
Cruzando o horizonte, em direção aos meus quadros, vinha um homem, com roupas brancas um pouco largas, descalço e segurando algumas flores na mão direita. Sentou ao meu lado cruzando as pernas.
- O que faz o senhor feliz? - Perguntou o homem com um sorriso no rosto.
- Pintar quadros - Respondi. - E o que te faz feliz? - Perguntei ao homem.
- Dar flores. - Respondeu o homem com um ar gracioso.
- Então você vive de que? Da felicidade alheia? - Perguntei ao homem com ironia.
- Sim. - Respondeu o homem sorrindo. - E aqui, uma flor para o senhor.
O homem me deu uma flor laranja, me deu um sorriso e caminhou rumo ao outro lado da praça.
As horas se passavam e cada vez mais quadros eu vendia. O sol ia se escondendo aos poucos e o escuro me dificultava continuar a pintar mais quadros. Decidi levar para a casa o último quadro que ainda não havia vendido. Com o passar dos minutos minha bolsa azul-escuro estava cheia novamente e meu corpo cansado voltava para casa.
A porta se fechou e minha bolsa eu joguei em cima da mesa. Sentei-me sob o sofá e peguei aquele quadro que ainda não tinha vendido. Um sorriso se abriu em meu rosto quando vi uma flor laranja pintada naquele quadro. Preguei-o sob minha cama; não me sentia tão feliz a muito tempo.
Deitei-me sobre a cama e puxei o cobertor feito de retalhos. Eu me sentia completo novamente.